Com a criação do PNBL em maio de 2010 pelo presidente Lula, utilizando-se a rede de fibra ótica da Telebras, criou-se a expectativa de uma inclusão digital massiva na sociedade brasileira. No ano seguinte, em abril de 2011 foi criada a Secretaria de inclusão digital interministerial, e entregue pelo governo DIlma à Ligia Pupatus, que demonstrou não ter a menor intimidade com o tema.
Com a secretaria de inclusão digital patinando, e com o ministro entreguista Paulo Bernardo, as telecons avançaram sobre o tema, iludindo a ideia de estarem promovendo a inclusão digital, quando na prática ofereciam o zero rating como solução. Para quem não sabe, zero rating é o acordo que as operadoras fazem com alguns serviços online, os oferecendo gratuitamente, foi ai que suposta inclusão digital se deu pelas redes sociais como o Facebook e o avanço avassalador do WhatsApp.
O resultado estamos vendo aí, analfabetos digitais absorvendo fake news e narrativas construídas a todo vapor. Mas antes de seguir, deixa eu trazer um outro tema pro debate.
Neste período promissor de 2010, a militância e partidos progressistas dominavam as redes, foi época dos blogueiros progressistas, que atuaram com velocidade e impacto na desmontagem de factoides e fake news na primeira reeleição do Lula e na primeira eleição da da Dilma. O campo progressista dominava as redes, e não tinha espaço para a grande mídia, o PIG, e nem para a direita. Além dos blogueiros progressistas, ainda existiam os MAGs, núcleos de redes sociais dentro dos principais partidos progressistas.
Inexplicavelmente tanto os MAGs, quanto os blogueiros progressistas foram perdendo força, a ponto dos MAGs serem paulatinamente desativados, e ao mesmo tempo, a direita de tanto apanhar nas redes decidiu investir nas redes sociais. O primeiro caso que me lembro é o guru Indiano do Serra, que construiu uma estrutura de comunicação sofisticada e que atuou por muitos anos.
Dai pra frente tivemos a Cambridge Analítica, e o aprimoramento da comunicação digital da direita, e como a emergência da extrema direta estes mecanismos foram intensificados principalmente no WhatsApp, em grupo extremamente conectados e capazes de disseminar informação a milhões de pessoas em segundos….
Enquanto isto o campo progressista seguiu inerte, ainda me lembro de que em 2014, com toda experiência do movimento Mega Não, me uni ao professor da UFRJ, Henrique Antoun e com a intermediação do Robson Leite, conseguimos apresentar uma palestra na sede do PT no Rio, sobre o tema Redes Sociais e eleições, com o objetivo de fornecer em seguida treinamento para assessores, ativistas e parlamentares. No dia do evento, naquele auditório enorme, só tinham 8 pessoas, destas cinco eram assessores, um fiasco preocupante.
Hoje, depois de quatro anos de pesquisa, defendi meu mestrado, e publiquei o livro “O Panspectron: Como as redes sociais estão moldando a realidade”, e o que mais me chama a atenção é que mesmo entre pares da academia, que compreendem perfeitamente os mecanismos de bolhas de unanimidade produzidas pelas redes sociais, nos flagramos construindo a percepção de consenso dentro destas bolhas.
Foi o que aconteceu, transitamos dentro das bolhas e deixamos de enxergar além delas, e nem mesmo as furamos adequadamente, nesta campanha pregamos para os convertidos, e qualquer tentativa de furar a bolha foi frustrada pela parcialidade descarada das bigtechs, donas do feudo onde nossas informações transitam.
A questão da comunicação é de extrema importância para a sobrevivência do campo progressista, temos de fazer o mea culpa, e temos de compreender e utilizar os mecanismos utilizados pela extrema direita.

