Anatomia do ativismo no BBB e a desconstrução dos estereótipos

Não sou fã de reality shows, tenho muitas críticas a estes tipos de entretenimento, mas em casa minha família acompanha todos eles. É BBB no almoço, na janta e depois também. As conversas sobre o reality são constantes por aqui. Não tenho como ficar de fora, muitos temas sensíveis surgem nestas conversas, e esta edição em especial está com um contingente grande de participantes negros. Segundo o IBGE, 54% da população brasileira é negra, e esta edição do reality tentou manter esta proporção.

A questão não é meramente matemática, mas sim o que está acontecendo na casa.

Não conheço o processo de seleção, mas acredito que devam existir avaliações psicológicas e psicograficas que permitam à direção do programa conhecer profundamente a personalidade dos participantes. Uma vez conhecidos, montar as possíveis dinâmicas esperadas no programa é uma questão simples para profissionais especializados em psicologia e sociologia.

O jovem e simpático Lucas foi o primeiro negro a ser ofertado ao achincalhe dos participantes, em especial dos participantes negros, que formaram o que esta sendo conhecido por “eixo do mal”. Lucas foi “cancelado” a partir dos ataques da psicologa e ativista Lumena, e sofreu assédio moral da cantora egocêntrica Karol Konca. O ataque ao Lucas se tornou ainda mais intenso a partir do momento em que ele e o Gilberto se beijaram. A pressão insuportável feita pelo eixo do mal, em especial pela própria Lumena, se deu em torno do questionamento da orientação sexual do rapaz, que não aguentou a pressão e pediu para sair do programa.

O episódio provocou uma verdadeira ebulição emocional no público que acompanha o reality. Se isto fosse um filme, é nesta hora a câmera iria cortar para mostrar o regozijo do vilão. Por falar em vilão, lembrei do fato, onde um vazamento mostra o audio do “Boninho” falando com o Projota sobre o Lucas, e ele diz: “O Lucas é um bom menino, mas ele omitiu que tinha problemas com a bebida. Quando ele bebe se transforma num monstro”.

Vamos parar um pouco, e olhar para os detalhes…

A refundação dos estereótipos

É impressionante a capacidade de refundar e reforçar estereótipos justamente quando a intenção é desconstrui-los. Pode ter sido a intenção da produção do programa criar uma oportunidade para trazer estas questões para o debate público, mas o que tem ocorrido tem sido o oposto.

Existem no âmago da sociedade brasileira inúmeros estereótipos que são repetidos e reforçados diariamente num processo recursivo que os fixa em nosso inconsciente, a ponto de acessa-los de forma automática.

Leonard Mlodinow no livro Subliminar diz que 95% da nossa capacidade cognitiva funciona de forma automática, e é para este campo da automação que estes preconceitos sedimentados vão.

Um exemplo interessante deste processo recursivo de consolidação de estereótipos em precoceitos pode ser tirado do livro Weapons o math destruction da Cathy O’Neil. Em determinado momento ela cita o PredPol, um sistema de inteligência artificial capaz de prever onde estão ocorrendo mais crimes com base no registro de delitos. O sistema foi usado pela policia de Los Angeles, que acabou delimitando as regiões de população mais pobre e negra como as regiões violentas. Isto ocorreu porque o próprio preconceito dos policiais foi assimilado pelo sistema, ao relatarem qualquer delito destas regiões, mesmo aqueles irrelevantes como pequenos furtos, e ao mesmo tempo relevarem delitos até mais graves em outras regiões, eles enviesaram os dados do PredPol.

Existem outras questões subjetivas que nos fazem reforçar nossos preconceitos, como diz o estudo da “Espiral do Silêncio” conduzido pela pesquisadora Elisabeth Noelle-Neumann em 1974. Segundo o estudo as pessoas optam por omitir-se, aceitando a opinião vigente do grupo, com receio de serem isoladas socialmente. Ou seja, aceitam os estereótipos e preconceitos construídos por seu grupo social, como medo de serem excluídas.

Ainda pelos submundos da mente humana, nosso processo cognitivo é repleto de automações, que nos fazem processar informações e tomar decisões de forma mais rápida. Estes processos são chamados de “heurísticas”, e já foram identificadas mais de 100 tipos diferentes, e estas heurísticas acabam reforçando nossas crenças, sedimentando ainda mais nossos preconceitos. Você já deve ter ouvido fala do “Viés de Confirmação”, que é uma heurística, que diz que tendemos a aceitar como verdade aquilo que dialoga com nossas crenças, e refutar tudo aquilo que a contraria. Outra heurística que acho pertinente aqui, é o viés da disponibilidade, que diz que tendemos a tomar decisões e conclusões com base nas informações imediatamente disponíveis em nossos esquemas mentais. Se estamos o tempo todo recebendo reforço de nossos preconceitos, é fácil concluir quais serão estas informações.

Percebe-se ai, o quanto estes estereótipos reforçam preconceitos, e quão profundo estes preconceitos permeiam o tecido social e a mente do indivíduo, dificultando muito sua desconstrução.

Ain! Que gente chata!

O primeiro passo para avançar contra estes estereótipos é enfrenta-los e desconstrui-los. Na prática toda luta de vitimas destes estereótipos se baseia nesta tarefa. E na verdade, todos somos vitimas de estereótipos e preconceitos em algum nível, nos colocando na posição de indignado.

Indignai-vos! Uma breve obra onde Stephane Hessel, explicita a necessidade de nos mantermos indignado. Para ele, muito da indignação é atrelada a eventos histórico, tornando-a pontual, porém defende que a pior das atitudes do ser humano é a indiferença, e a capacidade de indignar-se é completa quando integrada a capacidade de construir um altruísmo através da empatia. Stephane defende também a não violência e a insurreição pacífica como caminhos a serem trilhados nessa luta chamada vida.

Na prática, o processo de reação e desconstrução é pleno em emoções, e cria uma atmosfera pesada, colocando todos os demais no lugar comum de algoz. Desta perspectiva surgem as expressões como luta contra o patriarcado pelas feministas, ou luta contra as regras da branquitude no tema em questão. Isto em um micro ambiente social, como a casa do BBB acaba criando um ”clima pesado”, levando os participantes a pisarem em ovos, cuidando para serem politicamente corretos.

Para quem está do lado de fora, a leitura é “Ain! Que gente chata!”, não pode nada!

E é exatamente esta narrativa que esta sendo construída, a leitura fora do contexto de construção de políticas públicas é exatamente este. Não que este comportamento seja errado, ele é desejado, em políticas públicas o papel dos radicais é importante para podermos deslocar a janela de consenso para uma posição mais favorável.

Mas dentro de um reality é a pior coisa a ser feita, parafraseando Paulo Freire, o sonho do oprimido é tornar-se opressor, mas só o amor constrói. Se tivesse um participante experiente em políticas públicas, como o Diplomata Rômulo Neves que participou em outra edição, ele certamente faria o papel de mediador, transformando os embates em produtivos debates.

A experiência em politicas públicas nos faz perceber a distinção entre os indivíduos e suas representações no embate, nos permitindo separar as pessoas de suas personas. Outro aspecto é compreender que o dialogo é a raiz do consenso, e que o consenso é a única forma de evoluir. Todo resto é desperdício de energia.

Talvez a primeira coisa que os ativistas deveriam buscar compreender são todos os aspectos que forjam estes estereótipos e preconceitos, e não apenas os aspectos cognitivos como descrevi acima, mas também históricos, culturais, sociais, regionais, econômicos e políticos.

Mapeando os atores de suas interlocuções poderiam identificar formas de expor os efeitos de uma cultura opressora dentro de um contexto que o próprio opressor, ou representante do grupo opressor, possa perceber, ativando sua empatia.

Por exemplo, certa vez li um relato em uma rede social de uma menina que toda vez que pegava um taxi ou um Uber, ao entrar fingia estar falando com alguém, passando os dados do carro e do motorista, e avisando que chegaria em tantos minutos. O relato dela passava por outras práticas de segurança comuns em festas e até mesmo para andar sozinha na rua. Aquilo me assustou, eu sou homem hetero, faço parte do estereótipo do patriarcado. Mas eu senti mesmo, e me impressionei quando vi a quantidade de comentários e interações de outras meninas relatando suas práticas ou confirmando fazer o mesmo, aquilo me encheu de vergonha de pertencer a um estereótipo opressor, e mudou completamente a minha compreensão do que é ser mulher em uma sociedade machista.

Este é o gancho, este é o caminho pelo amor, como diz Paulo Freire, e não violento como apregoa Stephane Hessel.

Em resposta, quando Lumena falou que era desconstruída, e que não queria cozinhar porque cozinhar esta associado ao estereótipo do negro, a resposta dos outros participantes deveria ser a negação do estereótipo, melhor que desconstruir um estereótipo, é dissolve-lo em conjunto com todos, independente de quem for. E esta dissolução é trabalho de formiga, e deve começar em casa, em primeiro lugar deixando de usar a palavra “negro” como adjetivo…

Sobre a vacina, não se anime tanto assim

Não estou querendo acabar com a festa de ninguém não, mas 2021 não vai ser fácil, mesmo que tenhamos milhões de doses de vacina contra o coronavírus disponíveis já em janeiro.

A ausência de um plano de vacinação dialoga perfeitamente com um ministro da saúde que não é da área, e com um presidente que brinca de rei e acredita mais nas abobrinhas de sua mente do que na ciência. Estes irresponsáveis fizeram um estoque de cloroquina para mais de 100 anos, quando deveriam estar fazendo estoque de agulhas e seringas.

De nada adianta termos milhões de doses de vacina se não temos como aplica-las, segundo especialistas serão necessárias ao menos 300 milhões de conjuntos de seringa e agulhas para vacinar a primeira dose da população pouco superior a 200 milhões de brasileiros. As vacinas escolhidas até então no país necessitam de duas doses, e o governo também comeu mosca nos acordos com outros fabricantes, se fosse um governo sério teria feito acordos com todos.

Os fabricantes necessitam de SETE meses para fabricarem 300 milhões de seringas, se ao invés de cloroquina, o governo tivesse feito estoque de seringas estaríamos numa boa, mas agora iremos esperar na melhor hipótese até Agosto de 2021 para voltarmos a normalidade.

Mas estes não é o único problema, o país nunca fez uma campanha de vacinação desta dimensão, é uma empreitada única, e ao que parece o MS deu ao um veterinário a coordenação da tarefa.

Vacinação não é um ato individual, é necessário imunizar entre 60 à 90% da população para atingir o efeito desejado e erradicar a cepa atual do coronavírus, quanto maior a cobertura imunizatória, maiores as chances de não termos novas ondas com novas mutações do coronavirus, tal qual na gripe. Mas estamos vendo ai o próprio presidente, do topo de sua ignorância, fazendo campanha contra as vacinas e contra o ato cívico de vacinar-se.

Da para continuar dissertando sobre as falhas e riscos, muita coisa pode dar errado, e com esta falta de compromisso, estratégia e especialistas, esta chance é muito maior, e seria um luxo imaginar que teremos planos de contingência.

O governo esta dando muita chance ao azar, e provavelmente também seremos reconhecidos mundialmente como a nação com o pior plano de imunização do planeta. E provavelmente continuaremos isolados do mundo, uma vez que presumo que assim como hoje é com a febre amarela, o certificado internacional de vacinação contra a COVID será exigido nas fronteiras deste mundão. E teremos condições e credibilidade para emitir este certificado?

O ato de egoísmo dos promotores do MP de São Paulo ao tentarem buscar previlégio para vacinação pode ser um sinal de que esta disputa poderá se multiplicar, e tem uma razão para isso, pode faltar vacina pra muita gente. Não sei se isto poderá provocar algum tipo de convulsão social, mas a possibilidade é bem concreta.

A estratégia de vacinação atende a critérios científicos e técnicos, mas é difícil prever isto em um país governado por um presidente que despreza a ciência e tem aparelhado as instituições estratégicas da saúde, cultura e educação, com replicadores de sua própria ignorância.

Aliás por falar em emparelhamento, Bolsonaro colocou militares alinhados com ele para controlar a politica de aprovação de vacinas, ou seja, colocou seus capangas para prejudicar a liberação da vacinas com interesses políticos.

Não consigo imaginar um bom cenário para 2021, vejo mais quebradeira, mortes, e a economia caindo a níveis nunca vistos, isto porque é impossível prosperar e consumir em um ambiente tão incerto.

A conta vai ser muito alta, acredito que o país levará décadas para se recuperar… de sua própria ignorância…


Publicado originalmente em 06/12/2020 no Medium

Classe mérdia

Eu cresci na zona sul, e depois em um condomínio de classe média alta e jacarepaguá, e confesso que analisando o “ambiente” em que cresci, compreendo claramente esta viralatice insana que ganha as redes.

A adoração aos Estados Unidos sempre esteve nos centros dos debates de nossos pais e vizinhos, porque lá era lindo, porque a faxineira americana tinha carro, porque lá as coisas funcionavam, porque o povo era limpinho, porque lá não tinha pobreza. E este discurso passava de pai para filho, toda minha geração foi contaminada com esta perspectiva cultural. Alias ai está o gancho!

Desde o pós guerra, os Estados Unidos exportaram seu mais importante ativo, a cultura americana. O engrandecimento da indústria cultural americana, e digo cinema, música, e até basicamente tudo que liamos quando criança. Eu mesmo lia todas as publicações das Disney e tinha todos os manuais que foram publicados. O sonho do viralata americano começava desde pequenino.

Ícones, valores e símbolos americanos permearam a cultura da tal classe média de uma forma que a única forma de se sentir no primeiro mundo era se tornando americano, abdicando da própria nacionalidade brasileira. Me lembro de minha tia comentar perplexa que a vizinha dela na Gávea ostentava orgulhosa a foto do filho brasileiro, com uniforme da marinha americana. Muitos amigos sonhavam mudar para os Estados Unidos, até eu sonhava em ser americano.

Não percebia como estes valores eram entregues nos filmes, revistas em quadrinhos e até nas músicas, só achávamos aquilo fantástico. We love america! Tínhamos vergonha de ser brasileiros, isto criou uma imagem curiosa, ninguém podia ver alguém falando inglês, sem lhe dar logo o status de celebridade. Quantos americanos das classes mais baixas não se sentiram assim em terra brazilis?

Muitos de minha geração foram para a “america”, e agem como se americanos fossem, apesar de estarem presos entre dois mundos, o de que nunca serão americanos de fato, e o de que nem brasileiros. São os intermundos, mas se estão felizes, que sejam.

Esta mesma classe média, ou seria melhor, mérdia, foi incapaz de se enxergar como primeiro mundo, quando no governo Lula, o Brasil se tornou a 6a maior economia, e tínhamos um respeitoso reconhecimento como nação emergente e progressista, eu mesmo vi isto por várias vezes nos fóruns da ONU que participei por anos. Essa classe mérdia pedia desculpa por nossa ousadia, pois até o ministro da Cultura, o Gil revolucionou o valor da cultura brasileira mundo afora, que ousadia!

Curioso ver que esta mesma classe mérdia que achava o máximo a faxineira andar de carro nos EUA, ficava indignada com a faxineira andando de carro e avião por aqui, e a gota d´água foi quando o filho da faxineira entrou na faculdade e o da patroa não.

Na verdade dentro deste ambiente social se cultivava uma noção de status e valores que não condiziam com os nosso valores brasileiros, brasilidade passou a ser brega, chique mesmo é ser americano. Isto criou uma estranha vergonha de nossos valores.

Olha, mérdia por mérdia, eu acho os EUA uma merda, a única coisa boa de se fazer por lá é compras, eu descobri isto depois de rodar o mundo, até a Africa é mais interessante, e a Europa, não da nem para comparar com os EUA, sem dúvida, depois do Brasil, a Europa é um continente interessante.

No fim das contas, vamos o país ser destruído por um presidente totalmente despreparado, mas legitimo representante desta classe mérdia da barra da tijuca, que prefere ser viralata dos EUA do que ter orgulho de ser brasileiro. Isto explica comportamentos bizzaros da família que conduz o país a deriva, e seu amor subserviente aos EUA, e as manifestações pró Trump dos viralatas que não aceitam ser brasileiros, mesmo que nunca serão americanos, apenas idiotas úteis…

Existe um cérebro invisível por trás da emergência extremista?

Recentemente Leandro Demori publicou um texto no The Intercept, apontando evidências de que a emergência extremista é um projeto global. No texto ele aponta algumas coincidências nos discursos de representantes dos governos Italiano, Húngaro e Brasileiro.

Segundo Demori, na Italia, assim como no Brasil há uma perseguição contra a educação, e o que eles chamam de doutrinação marxista. Ainda segundo Demori:

Salvini, Bolsonaro e Orbán são políticos da nova onda de populismo de extrema direita. Não é coincidência que seus inimigos sejam os mesmos: professores (e jornalistas, “o comunismo”, George Soros etc). Todos estão seguindo um manual extremamente previsível de anti-iluminismo.

O texto de Demori não é muito longo, mas apresenta pistas que precisam ser investigadas.

Também não há dúvidas da influência pela manipulação das mídias sociais, através de fake news impulsionadas por bots e perfis fakes, com a precisão cirúrgica do microtargeting, tendo como principal mentor Steve Bannon, que esteve envolvido na campanha de Donald Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil. e há forte evidências de seu envolvimento no Brexit.

Não podemos deixar de considerar a exclusão recorde de 2,2 bilhões de contas falsas pelo Facebook no primeiro trimestre de 2019, coincidindo com o período pré-eleitoral na Europa.

Para colocar mais um elemento nesta questão, o economists Eduardo Moreira denuncia em um vídeo no Youtube, que o governo brasileiro está querendo sumir com as informações oficiais.

No vídeo o Eduardo demonstra que os links que pesquisava sumiram do Google, antes os resultados eram os primeiros, depois sumiram. O fato me chamou a atenção para um detalhe.

O que pode esta havendo com relação ao Google e estas informações que estão sumindo, pode ter relação com o decreto 9756/19, que “centraliza” os endereços de internet de diversos órgãos do governo (URLS). Isto somado a mudança do nome de alguns ministérios impacta sensivelmente em muitas URLs do governo, mudando-as completamente. Pelo decreto, projetos, secretarias, e outros que possuíam seus próprios endereços de Internet, passam a ser meras pastas sob o endereço do ministério. É importante destacar que para desaparecer com informações na Internet, basta eliminar os links, e no caso do Google isto é feito internamente quando há alguma denuncia ou ordem judicial, ou pela perda de relevância do conteúdo linkado.

O decreto muda significativamente diversas URLs e URIs do governo federal, derrubando sua visibilidade em ferramentas como o Google. Ao mudar as milhares de URLs e URIs, elas perdem “relevância” no Google, pois os webcrawlers que constroem e mantém a sua base de dados, irão encontrar uma enorme quantidade de links quebrados, que levam à página não encontrada ou conduzem a um excesso de redirecionamento, como no exemplo do fazenda.gov.br que agora é economia.gov.br.

O índice de visibilidade do Google, se assemelha ao ranking de artigos acadêmicos, ou seja, quanto mais citações melhor a avaliação. Como os endereços das citações quebraram, o ranking das informações procuradas cai.

O decreto, com validade a partir de sua publicação em 11 de Abril de 2019, em edição extra do Diário Oficial, parece atender ao timming perfeito, dificultando o acesso a informações importantes relacionadas aos temas relevantes como a Reforma da Previdência e Reforma Tributária. Além de inúmeros temas secundários. Os endereços do governo brasileiro na Internet vão levar algum tempo, que pode se estender por alguns meses, para recuperar sua relevância e visibilidade na Internet.

Coincidências ou não, o que parecia ser um decreto inútil e sem sentido, esta servindo como uma gigantesca cortina de fumaça para esconder informações relevantes do governo.

Se há ou não um cérebro invisível por trás desta emergência extremista, é importante identificá-lo o quanto antes, sabe-se lá o que está por trás desta onda de anti-iluminismo descrita por Demori, espero que não seja uma nova idade das trevas…

Como seria uma ditadura no Brasil de hoje?

O General Villas Boas gerou um grande desconforto, ao dizer  em uma entrevista, que a “legitimidade do novo governo pode até ser questionada”, despertando a preocupação com uma possível nova ditadura. Na sequência, o General Mourão diz que uma constituição não precisa ser feita por eleitos do povo.  A despeito dos questionamentos políticos, legais e constitucionais relacionados à estas declarações, temos uma preocupação adicional: Como seria a vigilância em uma ditadura no Brasil de hoje?

Uma ditadura no Brasil de hoje provavelmente seria menos violenta, porém, através do uso massivo de inteligência, seria implacável, sutil e invisível, detectando rapidamente qualquer movimento ou padrão que signifique ameaça, muito antes de se tornar uma. Em termos de matriz de força será extremamente desproporcional, com todo poder ao vigilante e quase nenhum ao vigiado, um verdadeiro pesadelo para qualquer cidadão e qualquer democracia.

A intensidade e profundidade desta vigilância será limitada pela permeabilidade obtida pelo governo ditatorial junto às empresas de aplicações de Internet, operadores de rede, comunicação e segurança. Uma simples mudança de protocolo, ou instalação compulsória de dispositivos, burlariam qualquer restrição técnica ou legal deste acesso, por parte do governo.

Em termos práticos, seremos vigiados 24 horas por dia, sete dias por semana, inclusive à noite, enquanto dormimos. A intensidade e profundidade desta vigilância será limitada pela permeabilidade obtida pelo governo ditatorial junto às empresas de aplicações de Internet, operadores de rede, comunicação e segurança. Uma simples mudança de protocolo, ou instalação compulsória de dispositivos, burlariam qualquer restrição técnica ou legal deste acesso, por parte do governo.

No contexto atual, a mobilidade e o crescente desenvolvimento tecnológico, são os motores do sofisticado sistema de vigilância. Algumas das novas armas da ditadura serão a Análise de Redes Sociais (ARS), Homofilia, Psicometria, inteligência artificial, machine learning, muita mineração de dados, e construção de padrões por deep learning.  Em linhas gerais todo e qualquer cidadão brasileiro estaria suscetível a esta nova vigilância, dificilmente alguém estaria fora de seu alcance.

É um padrão de vigilância que você provavelmente nunca imaginou, nem nos seus piores pesadelos. Imagine que o governo saberá que você está lendo este texto agora, a partir de qual dispositivo, qual a sua localização, se existem outras pessoas próximas a você, quem são, e se estão acessando algum serviço on-line, ou mesmo assistindo TV.

Além disto, o governo, por conhecer seu perfil psicométrico, suas particularidades, princípios, valores, e sua rede de relacionamento, saberá valorar o texto que esta lendo, e como você o processará cognitivamente. O governo também saberá quais pessoas de sua rede de relacionamento leram o texto, e qual valor deram a ele, e quais interações se deram em torno dele.

Por falar em rede de relacionamento, estas poderão ser mapeadas, mesmo que nunca tenham sido configuradas explicitamente, mesmo que você nunca tenha adicionado determinadas pessoas em sua rede social, na sua agenda de telefones, e somente as tenha contatado pessoalmente, é possível pelas tecnologias atuais inseri-las em suas redes, simplesmente por estarem próximas a você, seguindo um padrão posicional.

Em linhas gerais, você não fará nada sem que o governo saiba, ele pode não estar focado em você, mas os seus dados estarão sendo coletados, tratados, comparados, transmitidos e armazenados.

O governo saberá o que você vê, lê, ouve, compra, com que frequência, e com quem se relaciona, por onde anda, onde trabalha, mora, estuda, se diverte, se tem carro, ou como se desloca no meio urbano, ou seja, saberá toda sua rotina. O governo também saberá sobre seu relacionamento, estado civil, orientação sexual, se tem um ou mais parceiros, DST, problemas e dificuldades de relacionamento. Também terá acesso a seus dados fisiológicos e de atividades físicas, se você utiliza smartwatch ou faz algum registro online destas atividades. Em linhas gerais, você não fará nada sem que o governo saiba, ele pode não estar focado em você, mas os seus dados estarão sendo coletados, tratados, comparados, transmitidos e armazenados.

Este padrão de vigilância trabalha sobre o big data, e não sobre o indivíduo, e o foco da vigilância se dará sobre os padrões, ou seja, se você adotar algum padrão comportamental suspeito, se algum local que você tenha estado, ou se alguém de algumas de suas redes de relacionamento estiver no foco da vigilância, todos da rede e/ou todos que estiveram no local também serão alvo de vigilância.

O governo lhe conhecerá melhor do que você mesmo, construirá padrões de previsibilidade, saberá quando um determinado padrão significa uma ameaça, de que tipo e intensidade, e agirá para impedir um ilícito que poderia ser cometido, lembrando que ilícito em uma ditadura é um conceito muito ambíguo.

Você também poderá ser preso, por exemplo, por curtir publicações sobre “patinho amarelo” ou sobre o cultivo de bromélias. Isto, simplesmente, porque eventualmente um padrão identificou que pessoas que seguem as publicações do “patinho amarelo” tem 46% de chances de serem “subversivas”, e se também curtem publicações sobre o cultivo de bromélias esta probabilidade aumenta para 86%.

Você poderá ser preso simplesmente por ter estado em determinado local, e próximo à uma das pessoas envolvidas, por algumas vezes. Você também poderá ser preso, por exemplo, por curtir publicações sobre “patinho amarelo” ou sobre o cultivo de bromélias. Isto, simplesmente, porque eventualmente um padrão identificou que pessoas que seguem as publicações do “patinho amarelo” tem 46% de chances de serem “subversivas”, e se também curtem publicações sobre o cultivo de bromélias esta probabilidade aumenta para 86%. Estes padrões não são tão simples assim, mas atendem à uma lógica, que humanamente não parece fazer sentido, são padrões criados por homofilia, que significa comparar pessoas e seus hábitos, estabelecendo uma lógica relacional, e são construidos através de sofisticados processos de machine learning e  deep learning, a partir de uma quantidade gigantesca de comparações.

As possibilidades vão além da vigilância, a tecnologia atual permite um sofisticado controle social, pois como praticamente toda interação com mediação tecnológica se dá através de sofisticados algoritmos, torna-se possível controlar a informação que chegará ao indivíduo, a visibilidade de seus grupos e amigos, ocultando ou exibindo estas informações de acordo com as intenções da ditadura.

As possibilidades vão além da vigilância, a tecnologia atual permite um sofisticado controle social, pois como praticamente toda interação com mediação tecnológica se dá através de sofisticados algoritmos, torna-se possível controlar a informação que chegará ao indivíduo, a visibilidade de seus grupos e amigos, ocultando ou exibindo estas informações de acordo com as intenções da ditadura. Esta prática distorcerá seu entendimento de senso comum, você poderá ter amigos extremamente ativos “subversivamente” e nem se dará conta disto, pois os algoritmos lhe apresentarão conteúdo e pessoas que estão de acordo com os interesses do governo.

Este controle social pode ir além das redes sociais e das ferramentas de busca, estamos cedendo nossa autonomia para os aplicativos, hoje o usamos até para saber a melhor rota para um caminho usual, ou qual o melhor restaurante perto, ou qual o par perfeito para você, além de outras atividades banais do dia-a-dia.

É importante lembrar que o governo também conhecerá em detalhes todas as suas fraquezas e vulnerabilidades, e as explorará em benefício próprio.

É importante lembrar que o governo também conhecerá em detalhes todas as suas fraquezas e vulnerabilidades, e as explorará em benefício próprio. Alias não só as suas, mas também as fraquezas e vulnerabilidades dos grupos que pertence, e as exploraria da mesma forma, inclusive produzindo harmonia e discórdias quando necessário através da interação com os algoritmos.

Este poder existe, mas está contido e distribuído. A pesquisadora Cathy O’Neil chama de cardeais dos algoritmos, aqueles que detém o controle dos complexos algoritmos e gigantescas bases de dados de indivíduos, ou seja, a “biomassa humana” nas palavras de Maria Wróblewska. Como dito, este poder esta contido e distribuído, o Facebook e o Google por exemplo detém o controle sobre suas “biomassas humanas”, mas utilizam recursos como trackers, pixels e parcerias para romper, mesmo que parcialmente estas barreiras. Desta forma por exemplo, você recebe publicidade de um item recém pesquisado na Internet em seu Facebook. Se o governo ganhar o acesso amplo a todas estas redes, tornando-se um “mega cardeal do algoritmo”, se tornará praticamente um deus, com amplos poderes sobre os indivíduos, e como dito anteriormente, este poder pode ser tomado, facilmente em um regime de exceção.

Todo este controle, permitirá à ditadura perpetuar-se por anos, décadas, sem que nada venha ameaça-la, a não ser que as forças “subversivas” consigam desvencilhar-se deste complexo organismo de vigilância.  Apesar de assustador, este cenário é extremamente real e possível, com os recursos tecnológicos atuais.

A vigilância do século XXI

Para que você consiga compreender o cenário, é necessário mudar completamente o seu conceito de vigilância, que é o que tentarei nos próximos parágrafos.

Quando se fala em vigilância, logo vem a mente a imagem de uma câmera, com alguém observando atrás dos monitores. Sistemas de vigilância são naturalmente vistos desta forma, com centrais cheias de telas, e pessoas de olho nestas telas. É um modelo obsoleto, ineficiente, e está fadado a desaparecer em poucos anos, sendo substituído por uma “vigilância cega”.

O modelo de vigilância do Panóptico de Benthan, descrito por Foucault em “Vigiar e Punir“,  é similar ao modelo de vigilância da obra distópica 1984 de George Orwell, representada pela “teletela”, um dispositivo que ao mesmo tempo em que funcionava como uma TV com programação exclusiva do “partido”, servia de olhos e ouvidos para o “Grande Irmão”. O modelo panóptico baseia no par ver ser visto, a partir de um ponto de observação central, tendo o vigilante ampla visão do vigiado, e este nenhuma visão do vigilante, presumindo estar sendo vigiado. O Panóptico descrito por Foucault, por esta premissa, torna-se mais um instrumento de controle, do que propriamente vigilância. Um controle leve, eficiente, sem grades, invisível, e pela pressuposição de estar sendo vigiado.

O panóptico, que representa o modelo de vigilância vigente até o século XX, tornou-se obsoleto no século XXI. Zigmunt Bauman em “Vigilância Líquida” apresenta o conceito do “panóptico pessoal”, em que o indivíduo torna-se vigilante de si e de seus pares, e cada um carrega seu próprio Panóptico, materializado por Bauman como seus smartphones e dispositivos conectados. O que Bauman descreve, dialoga com o que Fernanda Bruno, em “Máquinas de ver, Modo de Ser. Vigilância Tecnologia e Subjetividade“, descreve como “Vigilância Distribuída”, que tira a centralidade da vigilância, principal característica do panóptico. A Vigilância Distribuída se dá a partir de vários dispositivos conectados, e não somente por um, configurando o que classifico como meta dispositivo de vigilância, que são dispositivos interconectados, como por exemplo, um smartphone conectado a um smartwatch.

O advento do big data substituiu o modelo panóptico pelo panspectro. O panspectro é uma expressão cunhada por Manuel DeLanda em 1991, no livro “Guerra na era das máquinas inteligentes”, e posteriormente usado por Sandra Braman no livro “Change of State – Information, Policy, and Power“. O foco do panspectro não é o indivíduo em particular, ele esta focado nos dados, em todos os dados, e sua ação focal se dá em resposta à padrões, como já foi descrito anteriormente. A mineração dos dados, o uso de machine learning e deep learning, configuram a vigilância cega, uma vigilância com foco em padrões onde sua visibilidade se torna necessária apenas como resposta à padrões desviantes ou ressonantes, estes dados são coletados através dos dispositivos e meta dispositivos de vigilância.

Dispositivos e meta dispositivos, pela perspectiva da Vigilância Distribuída, configuram um complexo Organismo de Vigilância, onde cada um representa um dos bilhões de nós deste organismo.  É como se estivéssemos literalmente imersos em um mega dispositivos de vigilância com alta capilaridade e invisível. São smartphones, tablets, computadores, smartwatch, wearables, câmeras de vigilância, drones, RFID, redes abertas, redes de telefonia móvel,  e qualquer outro dispositivo tecnológico conectado, doravante conhecido por “dispositivo”.

Para você ter uma ideia do potencial de vigilância dos dispositivos, os smartphones mais populares, como o iPhone e o Galaxy S possuem sensores como GPS, beacon (que são sensores que identificam a proximidade de outros dispositivos), altímetro barométrico, acelerômetro, giroscópio, sensor de proximidade e de luz ambiente, assistente inteligente, microfone, alto falante, câmera frontal e traseira, e alguma forma de identificação biométrica. Além de possuírem conectividade por Wi-fi, Bluetooth, 3G e 4G. Estes dispositivos estão na maioria das vezes coletando dados, de forma involuntária, e muito caros ao indivíduo e sua privacidade.

Temos hoje um organismo de vigilância com mais de 12,3 bilhões de dispositivos, ou seja, 1,6 dispositivos por habitante do planeta.

Em termos de grandeza concreta, segundo o Internet World Stats, em Dezembro de 2017, 4,1 bilhões de pessoas tinham acesso a Internet, considerando que o relatório da Cisco projeta que em 2020, existirão em média 3,4 dispositivos conectados à Internet por usuário, e considerando a média de 3 dispositivos, temos hoje um organismo de vigilância com mais de 12,3 bilhões de dispositivos, ou seja, 1,6 dispositivos por habitante do planeta, considerando a população atual em 7,7 bilhões, sem contar os demais dispositivos de vigilância como câmeras, drones, e outros, e sem esquecer que cada dispositivo pode ter vários sensores.

Dificilmente damos conta que carregamos conosco um dispositivo de vigilância tão poderoso, a ponto de muitos ativistas chama-los de “dispositivo de vigilância que permite fazer ligações telefônicas”.  Eles nos rastreiam mesmo quando não estamos conectados à Internet, como demonstra esta matéria da Fox News.

Mas não são somente estes os dispositivos e tecnologias que podem acabar literalmente com a nossa privacidade, em caso da instalação de uma ditadura no país. Nossos hábitos na internet também produzem dados sobre nós, além das relações mediadas por algoritmos, são cookies, trackers, remarketing que capturam dados sobre nós.

O Facebook, por exemplo, faz uso de trackers para saber o que você faz na Internet, quando não esta nele, mas também usa dados do WhatsApp e Instagram, por serem empresas do mesmo grupo. Na verdade o Facebook e o Google são a mais clara representação do que Shoshana Zuboff chama de capitalismo de vigilância. Este complexo mecanismo de captura, coleta, tratamento, analise e armazenamento de dados chamado Facebook, foi explorado em profundidade pelo ShareLab, e descrito em forma de monólogo pela Panoptykon Foundation, no vídeo a seguir.

Como pode perceber, não podemos pensar em um modelo de vigilância e controle no século XXI, com a mente do século XX, o formato e conceito de vigilância mudaram. Do Panóptico de Foucault, onde primava o par ver ser visto, ao Panspectro de Braman, onde prima a coleta indiscriminada de dados, e a vigilância se manifesta em respostas a padrões. Os dados que produzimos podem dizer muito mais sobre nós do que a simples vigilância. O modelo atual, representado na figura abaixo, tem as características visuais do Panóptico, mas apenas como elemento complementar ao vasto potencial de vigilância do Panspectro.

Vamos tomar por exemplo um caso real, o Norte Shopping, no Rio de Janeiro. Este shopping instalou um moderno sistema de câmeras de segurança que faz o reconhecimento facial de todos que transitam em seu interior, o que possibilitou inclusive a prisão de dois criminosos procurados. O sistema, segundo a empresa que o fornece, como descrito na matéria, faz o reconhecimento facial do indivíduo e o compara com um banco de dados.

Imagine então que você entre neste shopping, o sistema irá fazer uma leitura da sua face, sem que você perceba, em seguida consultará uma base de dados, e se não encontrar registro, irá criar um novo com o modelo matemático de sua face, dando o identificador hipotético “IND18A7F8E7”. O sistema então passa a registrar seu deslocamento dentro do shopping, por onde andou, em que lojas parou para ver a vitrine, em quais entrou, quanto tempo demorou, etc.  Tudo isto é feito sem nenhuma interação humana, mas tudo fica registrado, eu suponho.

Neste momento você pega seu smartphone e resolve conectar à rede wifi do shopping, que em geral pede dados cadastrais como nome, cpf, e número de telefone para conceder o acesso. Supondo que os sistemas sejam interligados, a partir deste ponto, utilizando a triangulação dos pontos de acesso wifi, sua posição pode ser determinada, e comparada com a posição do registro da câmera de vigilância, associando seus dados ao usuário IND18A7F8E7. Novamente lembramos que tudo é feito sem nenhuma interação humana.

Agora imagine, em uma ditadura, que sistemas como estes sejam interligados, e os dados sejam acessados pelo governo. Mesmo que você não esteja carregando nenhum dispositivo, sua identificação será possível por sistemas deste tipo.

Alias não precisamos ir muito longe, ainda no Rio de Janeiro, a CodingRights fez um estudo sobre o bilhete único carioca, e chegou a conclusão que os dados dos usuários, inclusive os biométricos de reconhecimento facial, são compartilhados com a polícia e a secretaria municipal de transportes. Imagine então que nem no ônibus é possível viajar incógnito.  Junte a estes sistemas de reconhecimento de placas de automóveis, que possuem câmeras espalhadas pela cidade, a nova placa com chip e QR Code, e seu carro poderá ser rastreado, os limites da vigilância não terminam ai.

Estamos há anos trocando nossa liberdade, nossa privacidade e autonomia pelo conforto da tecnologia, e pela segurança que esta proporciona, o preço desta prática só será percebido quando em uma ditadura nos tornarmos prisioneiros dela.


Veja mais sobre o tema no site de meu projeto de pesquisa, e minha página do projeto no ReserachGate.


Bibliografia

BAUMAN, Z. Vigilância Líquida. In: MEDEIROS, C. A. (trad.). [s.l.]: Zahar, 2014. 160 p. ISBN: 978-8537811566.

BRAMAN, S. Change of State – Information, Policy, and Power. Nature Publishing Group. London, England: The MIT Press, 2006. 570 p. ISBN: 9780262025973.

BRUNO, F. Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. 1 ed. Porto Alegre: Sulina, 2013. ISBN: 9788520506820.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir o nascimento da prisão. 29 ed. São Paulo: Editora Vozes, 2004. 266 p. ISBN: 8532605087.

O’NEIL, C. Weapons of Math Destruction, How big data increases inequality and threatens democracy. New York: Crown Publishing Group, 2016. 307 p. ISBN: 9780553418828.

ORWELL, G. 1984. In: JAHN, H. ‎; HUBNER, A. (trads.). [s.l.]: Companhia das Letras, 2009. 416 p. ISBN: 978-8535914849.

WRÓBLEWSKA, M. Monologue of the Algorithm: how Facebook turns users data into its profit. Panoptykon Foundation. 2018. Disponível em: <https://en.panoptykon.org/articles/monologue-algorithm-how-facebook-turns-users-data-its-profit-video-explained>. Acesso em: 24/ago./18.

ZUBOFF, S. Big other: Surveillance capitalism and the prospects of an information civilization. Journal of Information Technology, [s.l.], v. 30, no 1, p. 75–89, 2015. ISBN: 02683962, ISSN: 14664437, DOI: 10.1057/jit.2015.5.

O homem sem fé

Não sei como as pessoas sobrevivem sem fé?

Não estamos falando de fé religiosa, estamos falando da fé em si, daquele sentimento interno que nos faz manter alguma esperança, daquele fio de teimosia que nos faz crer que apesar de toda adversidade, alguma coisa vai dar certo.

Estamos falando daquele sentimento que nos faz emergir olhando para a frente para vislumbrar uma pequena luz bem distante.

Estamos falando daquele sentimento que nos faz crer que hoje será melhor que ontem, que este mês melhor que o mês passado, que este ano será melhor.

A fé que nutrimos repleta de simpatias no Reveillon frente a um ano novinho em folha que desperta. A fé que nos faz pensar em yin-yang, a filosofia taoista da dualidade, onde os opostos andam juntos e nos faz perceber que sempre o bom é o outro lado do ruim, e que basta olhar por outro ângulo para vermos o bom, se não o vemos, ao menos podemos acreditar que ele está ali.

A fé… a fé que move montanhas pelo simples fato de que acreditamos que isto seja possível.
A fé que cura, a fé que nos acalenta, a fé que nos mantém vivos.

Ter fé não significa religiosidade, ter fé significa acreditarmos em nós, ter fé significa amor.

Amor por si, pelos seus, pelo próximo, pelo mundo. Amor pelo próximo significa praticar o altruísmo e a empatia. O exercício de dar ao próximo a fé que ele busca, pelo simples fato de saber que alguém o compreende, que alguém de alguma maneira se preocupa com ele.

A fé acalenta, a fé acalma, mas a fé pode falhar pelo simples fato do homem deixar de acreditar em um futuro possível. Quando todas as luzes distantes parecem ter se apagado, e o amor vai dissipando, e com ele a sua capacidade de ser um homem de fé. O homem sem fé é amargo, o homem sem fé é um homem aprisionado em si mesmo, preso em uma cela que não o permite ver a luz distante por mais intensa que esta seja.

Alguns chamam isto de depressão, mas na verdade é falta de fé.
Dê fé a quem precisa, exercite seu altruísmo e sua empatia, é dando que se multiplica.

Não deixe o mundo perder a fé.

João Carlos Caribé
Janeiro de 2018

Precisamos parar a espiral negativa!

Há muito tempo venho avaliando a sociedade atual como sendo econocêntrica, aquela que tudo percebe pela ótica da economia, ou em outras palavras, a economia é a estrutura pela qual a sociedade avalia o mundo que a cerca. O Brasil, um país onde mais de 90% da população tem uma renda mensal inferior aos R$ 4.377,73, que são concedidos à titulo de auxilio moradia aos juízes, não parece fazer o menor sentido nos preocuparmos com o fato do índice BOVESPA ter caído ou o dólar ter subido, ou ainda que a projeção do PIB subiu 0,01%, quem dirá com a taxação de grandes fortunas. Ainda mais se levarmos em conta que 61,2% das famílias brasileiras estão endividadas, e 25,2% estão inadimplentes.

Em dos “polêmicos” textos dos Marco Gomes, ele abre com uma frase muito interessante:

Criaram a “classe média” para apaziguar quem iria se rebelar se percebesse que somos todos pobres: precisamos trabalhar para mantermos nosso estilo de vida e não morrermos de fome.

A polêmica se deu pela reação desmedida de alguns leitores ao título — “A quem interessa uma classe média que não se vê como pobre?”-, e ao conteúdo, crítico e realista. Mas esta noção de realidade é difícil para todo mundo, você por acaso se imagina pobre? Então deixa eu te mostrar uns dados e gráficos que extrai do PNAD de 2017 e algumas matérias por ai. Segundo o PNAD, o rendimento médio mensal do Brasileiro foi de R$ 2.178,00, menos da metade do auxilio moradia de um juiz. Assim como apenas 4% da população ganha em média R$ 9.782,00 e apenas 1% ganha em média R$ 27.213,00, vejamos o gráfico que montei a seguir:

Como você pode ver, a tal elite que representa o famoso 1% da população não são estes que ganham em média R$ 27.213,00. Olhando este gráfico, você que está na classe A ou B, se sente um milionário, visto que 65% da população ganha em média R$ 1008,00, então você ganha em média entre 9 e 27 vezes este valor.

Mas sabemos que tem gente ganhando muito mais de 27 mil por mês, provavelmente o IBGE expurgou os supersalários. Tomemos os juízes por exemplo, 71% ganha acima do teto constitucional que é de R$ 33.763,00 configurando um salário médio de R$ 42.505,66. Temos ainda os CEOs de grandes empresas, que ganham em média R$ 142.000,00 por mês. E não podemos deixar de incluir os apresentadores de TV, os 10 mais bem pagos, ganham em média a bagatela de R$ 1.000.000,00 por mês, tem ainda os donos e executivos das emissoras, jogadores de futebol, mas vamos ficar só com estes aqui mesmo. Colocando esta turma no gráfico anterior temos um cenário interessante:

Observe como as classes B e C, a dita classe média ficou insignificante, até mesmo a classe A, e visualmente pouco distante das demais classes abaixo dela. Se tirarmos uma média dos supersalários temos R$ 394.835,00 que é 14,5 vezes maior que o salário médio da classe A, 40,36 vezes maior que o salário médio da classe B, 75,73 vezes maior que o salário médio da classe C e 181,28 vezes maior que o salário médio do brasileiro em 2017!

Mas mesmo eles não são a tal elite, todos trabalham, a elite, ou seja, os ricos, não possuem salário, pois não trabalham, vivem literalmente do mercado financeiro, e suas riquezas permeiam diversas empresas, institutos e organizações que custeiam suas despesas e detém seus bens.

Porque somos uma sociedade míope?

Acredito que agora você compreenda melhor quem são os detentores das grandes fortunas que tanto se quer taxar, e que a sua distância social para a do trabalhador que recebe um salário mínimo é insignificante frente à sua distância para os mais ricos. Mas mesmo assim, boa parte da sociedade não enxerga isto, enxerga por uma perspectiva míope, ou seja, uma perspectiva imaginária e distorcida, mas que é diariamente estimulada por todos os meios de comunicação e valores culturais e históricos que pavimentam a sociedade brasileira.

Diferente da visão de igualdade e pertencimento do europeu, que consolidou com o pacto social do pós guerra, na reconstrução dos países e do continente, o brasileiro herdou uma cultura do desprezo de classe da época da escravidão em conjunção com a visão de subserviência de um país que ainda não perdeu a identidade de colônia, nossa visão de sociedade em muito se assemelha com o sistema indiano de castas.

Enquanto não rompermos com esta perspectiva, e guturalmente nos percebermos como uma nação, onde cada um tem um papel importante na sociedade, que merece ser admirado e respeitado pelo que representa, nunca sairemos desta espiral negativa que nos assombra periodicamente.

O Brasil está neste momento numa das piores espirais negativas que vi em meus pouco mais de 50 anos, nunca vi tanta intolerância, preconceito e ódio de classe. Também nunca vi nossa sociedade tão desorientada, generalizando o mal, e personificando o bem, reduzindo questões complexas a perspectivas cartesianas e polarizadas, como se estes assuntos fossem passíveis de resolver por uma lógica booleana.

Depois o impeachment, ou melhor do golpe de 2016, por causa deste comportamento assistimos passivamente o maior desmonte do Estado da história, nem mesmo na ditadura se chegou à tanto, mas nossa sociedade segue entretida, numa troca de papéis, sentimentos e ofensa, ora movido pela vergonha, ora pelo ódio, como se de fato fôssemos responsáveis pelo que esta acontecendo.

Somente se pararmos a espiral negativa conseguiremos enxergar com clareza e reagir a tempo de salvar o pouco que resta de Brasil, faça as pazes com seu amigo ou parente que você brigou por causa de bobagem, mostre que estamos do mesmo lado, que é bom que tenhamos opiniões divergentes, mas principalmente que agora estamos aberto a debater, com calma e sabedoria. Vamos aplicar uma visão crítica às informações e noticias que nos chegam, isto significa olhar com desconfiança, buscar o controverso, debater, ouvir, concluir e ainda assim, estar disposto a mudar novamente. Vamos fazer um exercício…

Pouca areia pro nosso caminhãozinho

Quando falei lá no inicio que não fazia sentido nos preocuparmos com a variação do dólar, do índice BOVESPA e do PIB, é porque este indicadores não nos afetam diretamente, vamos falar de caminhão e petróleo para você perceber o que estou dizendo.

O locaute ou greve dos caminhoneiros, que vem promovendo uma crise de abastecimento crescente, não só de combustível, mas também de produtos frescos como hortifrutigranjeiros, e agora a greve dos petroleiros, revelando um grave problema que passou despercebido. Enquanto a grande mídia responsabilizava o governo anterior por subsídios excessivos no preço dos combustíveis, a realidade vinha de dentro da petrolífera. Na gestão de Pedro Parente, desde outubro de 2016 a Petrobras adotou o pareamento com o preço internacional do Petróleo, por esta razão os combustíveis subiram tanto. Segundo a Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), esta política que vem ganhando o apelido de “America First!”, beneficiando as petrolíferas Americanas, estamos exportando quantidades enormes de petróleo bruto e importando quase todo combustível, tornando nossas refinarias ociosas.

Com o desemprego beirando os 14%, a política de preços da Petrobras só piora as coisas, indústrias de capital intensivo como a petrolífera, giram um verdadeiro ecossistema econômico em seu entorno, produtos e serviços auxiliares, por exemplo. Com a ociosidade das refinarias teremos em breve ainda mais desempregos. Só por esta razão o subsídio seria de longe a melhor alternativa, ainda assim, a AEPET destaca em sua nota que o subsídio dos governos anteriores nunca afetaram a geração de caixa. Mas a grande mídia cumpre seu papel, fazendo a população acreditar que foram os subsídios do governo anterior os responsáveis pelos sucessivos aumentos do preço dos combustíveis, escondendo a verdade, ou pelo menos a outra perspectiva do problema.

Ainda pensando em termos práticos, apesar de estarmos exportando petróleo como nunca, não iremos nos beneficiar deste aumento de receita por causa da PEC 241 que congela o orçamento da união por 20 anos. E ao conceder a exploração do precioso pre-sal às companhias estrangeiras, além do aumento do desemprego, corremos ainda o risco de ficarmos sem nossa reserva estratégica de petróleo em poucos anos.

Nos governos anteriores, o Brasil seguiu o sucesso norueguês com o pre-sal, destinando 100% dos seus royalties para a saúde e educação, a mesma Noruega que agora detém 25% do campo de Roncador na bacia de Campos, o Brasil perdeu, perdeu e vem perdendo, estamos fadados a um colapso em poucos anos. O golpe nos derrubou pirâmide de Maslow abaixo, antes visávamos o auto reconhecimento, e o pertencimento social, hoje estamos nos preocupando com o básico que é segurança, emprego e moradia.

Temos de mudar isto, mas não com o ódio, e sim com o amor…

 

Como se produz uma fake news…

Fake News Head

Vamos citar um caso “hipotético”, bem hipotético, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, muita coincidência…

Imagine que uma determinada desembargadora tenha recebido de uma amiga pelo WhatsApp, uma informação falsa, ou até mesmo um comentário, sobre uma vereadora assassinada. O texto dialoga com os valores da desembargadora, inclusive por causa do viés de confirmação, a desembargadora relutaria a acreditar em uma outra versão da Informação. Com base na informação recebida, a desembargadora faz uma declaração no Facebook, e aproveita para acrescentar mais alguns detalhes, deixando-a mais convincente pela sua perspectiva.

Este texto falso é sobre o assassinato de uma vereadora que investigava os abusos da policia em uma comunidade, tudo hipotético é claro.

Um jornal e uma revista de grande circulação, repercutem a declaração da desembargadora com um título clickbait, ou seja, um titulo sensacionalista que chama a atenção para a leitura do artigo. Na verdade, é um titulo que dialoga com o viés da confirmação de muitos, que irão compartilhar o link sem ao menos ler a matéria.

E na matéria, no final, a desembargadora declara à repórter que não conhecia a vereadora antes do assassinato. Como assim, se ela não sabia nada da vereadora, como pôde dizer no Facebook que a vereadora era associada ao narcotráfico????

Ou seja, a desembargadora criou e disseminou uma fake news, que foi repercutida pela grande mídia, e posteriormente reverberada pela Internet.

Agora tomemos esta história pela luz da narrativa que esta sendo construida pela mídia e pelas instituições governamentais sobre as fake news, ou seja:

A fake news como objeto central da narrativa, tendo como seus produtores e disseminadores os “militantes” e os “oportunistas” e como consequência uma séria ameaça à democracia. (Extraido de estudo recente que fiz sobre a narrativa do combate às fake news)

Diagrama Fake News

Do estudo que fiz sobre a narrativa do combate às fake news, elaborado após a leitura de oitenta noticias em torno da narrativa do combate às fake news publicadas na internet, no período de 1º de Outubro de 2016 à 22 de Janeiro de 2018, extraio o seguinte trecho:

Para o Senador João Alberto Souza (PMDB-MA) elas são uma grande ameaça à democracia(1). Segundo ele, o indivíduo que espalha notícia falsa comete crime de difamação, a punição deve ser agravada porque o prejuízo passa a ser de toda a sociedade. Para o Ministro do TSE Tarcisio Vieira, as fake news criam “consensos artificiais” e “prestam um enorme desserviço à democracia”(2) e o Estado deve atuar para proteger o eleitor. Para combater esta séria ameaça o Ministro Fux, que assumirá o TSE em Fevereiro de 2018, acredita ser necessário até bloqueio de bens e detenção de quem produzir e disseminar fake news(3). Já para a Polícia Federal, nas palavras do delegado Eugênio Ricas, poderá ser necessário usar a Lei de Segurança Nacional, editada em 1983, no último governo do regime militar, para coibir as chamadas fake news nas eleições deste ano caso não seja criada uma nova lei para combate-las(4). Em nota no Jornal O Estado de São Paulo em 19 de Janeiro de 2018, o diretor geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, afirmou ter acertado com o FBI a participação de um grupo de especialistas em fake news e dark web para elaborar um diagnóstico da utilização de informações falsas no Brasil.

O atual presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, criou um conselho especialmente para tratar da questão das fake news e reúne dez representantes de diferentes orgãos, incluindo o Centro de Defesa Cibernética do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército Brasileiro, e a ABIN.

A revista Veja publicou em 12 de Janeiro uma edição com destaque sobre o tema, e em um dos artigos com acesso público intitulado “A ameaça das Fake News”(5) apresenta um recorte dizendo que: “83% dos Brasileiros se preocupam com a enxurrada de noticias falsas que circulam na Internet”, e identifica dois tipos de “propagadores de fake news à solta”: “militantes empenhados em atacar a reputação dos adversários políticos de seus candidatos e empresas ou indivíduos que fabricam notícias falsas com o intuito de ganhar dinheiro por meio dos anúncios — sobretudo vindos do Google AdSense, braço de publicidade do Google”.

Sob esta perspectiva – que é extremamente equivocada – como você acha que se dará o desenrolar desta história?


Publicado originalmente no Medium

Precisamos nos desconectar do Facebook!

Me desconectei por 15 dias e foi uma experiência incrível…

O smartphone nos transformou efetivamente em ciborgues, temos em nossa mão um dispositivo computacional de alta eficiência e equipado com câmera de foto e vídeo, microfone, GPS, acelerômetro, giroscópio, magnetrômetro, sensores de luz e proximidade, além de outros recursos que permitem a criação de aplicativos cada vez mais úteis, impressionantes e viciantes.

Há 20 anos, quando ainda “entravamos” na Internet através de nossos computadores, o máximo de mobilidade era alcançada com desajeitados e pesados laptops, e mesmo assim sua mobilidade estava limitada a um ponto de conexão física de rede. Hoje carregamos literalmente o mundo no bolso.

Nossos dispositivos estão conectados vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e o ano inteiro, mesmo enquanto estamos dormindo. Temos consciência desta nova camada, deste novo sentido — nossos dispositivos podem ser percebidos como um novo sentido, o oitavo sentido, já que existem linhas teóricas que afirmam existir um sétimo sentido.

Vivemos tão conectados que não percebemos estarmos sempre carregando um dispositivo biônico, o smartphone, para onde vamos, literalmente qualquer lugar. Estamos sempre checando as nossas redes, notificações que saltam na telinha do celular, com seus barulhos característicos, e quando não estamos prestando atenção, eles vibram no nosso bolso para chamar nossa atenção.

Este dispositivo biônico, através dos aplicativos, nos oferece gratuitamente inúmeras facilidade tais como obtermos a melhor rota para qualquer destino, possibilitar andarmos em qualquer lugar do mundo, medir e registrar nossos dados físicos e fisiológicos usando outros dispositivos biônicos conectados ao nosso corpo, ou monitorar nossa casa através de dispositivos conectados, interagir através das redes sociais, navegar na internet, planejar qualquer coisa, gerenciar nosso trabalho, e muito mais, tudo que temos de fazer é dar em troca nossos dados e nossa autonomia.

E as redes sociais?

Chamam de interação social, um indivíduo olhando para uma tela colorida, sociabilizando através de uma espécie de metaverso, onde ele pode interagir silenciosamente em um ambiente frenético e ruidoso. É sem dúvida um metaverso, pois toda sociabilização nestas redes é mediada por complexos algoritmos. Estes algoritmos, ou melhor conjunto de algoritmos, cuidam de registrar tudo que você faz, cada clique, like, comentário, compartilhamento, leitura, amigo, grupo, página, absolutamente tudo eles registram. Estes registros são comparados com inúmeros outros que foram coletados de outros usuários, criando um perfil tão preciso, que bastam apenas 300 curtidas para o Facebook saber mais sobre você do que sua(seu) parceira(o). Conhecendo-o tão bem, os algoritmos irão lhe oferecer experiências sociais tão gratificantes, que o manterá cada vez mais fiel, e viciado.

Além de lhe proporcionar boas experiências, os algoritmos do Facebook podem influenciar seu humor, sua opinião, sua percepção do mundo, o principal objetivo dele é obter receita por suas interações, só de Julho à Setembro do ano passado, ele faturou 10,14 bilhões de dólares em publicidade, para isto ele precisa que você interaja mais, e segundo a neurocientista Molly Crocket, a forma mais eficiente de fazer isto é apresentar uma postagem que te provoque, literalmente. Ao fazer isto ele garante que você irá reagir e produzir um burburinho na sua bolha pessoal de amigos. Segundo Crocket as redes sociais neste processo provocam em nos uma montanha russa emocional, e ainda não se sabe as consequências disto.

Na verdade o Facebook é o maior laboratório social do mundo, estudando e registrando absolutamente tudo sobre mais de 2 bilhões de pessoas, ele possui perfis super detalhados por segmentos e até indivíduos das mais diversas culturas, isto confere à rede social um poder nunca antes imaginado.

Estamos nos tornando tão dependentes das relações sociais mediadas por algoritmos, que já existem patologias específicas como a FoMO — Fear of Missing Out, que é literalmente o medo de ficar de fora nas redes sociais.

Estes são apenas alguns dos problemas encontrados, mas foram a gota d’água que faltava para eu me entregar à uma experiência interessante e gratificante.

A Experiência

Foram quinze dias sem acesso ao Facebook, entre 18 de Dezembro de 2017 e 01 de Janeiro de 2018. Desinstalei tanto o aplicativo do Facebook como o Messenger de todos os meus dispositivos, e não acessei a rede social pelo computador no período.

Para avaliar a experiência, usei oito indicadores subjetivos:

  1. Ansiedade — com objetivo de medir o nível de ansiedade/tranqüilidade. Sendo 10 ansiedade extrema e 1 tranqüilidade extrema.
  2. Otimismo — com objetivo de medir o nível de otimismo/pessimismo. Sendo 10 extremamente otimista e 1 extremamente pessimista.
  3. Percepção da realidade — com o objetivo de medir o quanto positiva ou negativa. Sendo 10 extremamente positiva e 1 extremamente negativa.
  4. Felicidade — com o objetivo de medir a felicidade/tristeza. Sendo 10 extremamente feliz e 1 extremamente triste.
  5. Stress — com o objetivo de medir o nível de stress como um todo. Sendo 10 extremamente estressado e 1 extremamente calmo.
  6. Produtividade — Indicador subjetivo da percepção de produtividade. Sendo 10 extremamente produtivo, e 1 improdutivo ao extremo.
  7. Sensação de alienação social — Indicador bem subjetivo da percepção de alienação social, geralmente percebida com o número, frequência e densidade das interações sociais. Sendo 10 totalmente alienado, e 1 totalmente engajado.
  8. Sensação de alienação informacional — Com o objetivo de medir a percepção de informação de conjuntura e contexto, geralmente dada por noticias e novidades compartilhadas por seus pares. Sendo 10 totalmente alienado e 1 totalmente por dentro.

Como eu sabia como quantificar os indicadores, não me preocupei em criar elementos para sua avaliação, o que se tornará indispensável para a próxima fase da experiência com outros voluntários. Também se tornará imperante estabelecer o período e amostragem necessária para termos um melhor critério científico.

O que aconteceu?

A primeira preocupação foi em como eu “sobreviveria” sem o Facebook por 15 longos dias, percebi que estamos tão habituados a acessar a rede frequentemente que me pareceu uma decisão radical demais para ser tomada. Esta preocupação seguiu pelos dois primeiros dias.

No primeiro dia a ansiedade e o stress estavam altíssimos, e caíram abruptamente a partir do terceiro dia.

A sensação de aumento de produtividade se deu logo no segundo dia, e subiu rapidamente. Em busca de uma justificativa percebi que o habito de checar o Facebook regularmente, ou simplesmente a ideia de faze-lo nos deixa um estado de “semi conectividade” — é como estivéssemos o tempo todo em um tipo de “sleep mode” e qualquer notificação em nossos dispositivos nos “acordava” para ele — isto acaba consumindo muito de nossa atenção. Deixar o celular fora de nosso alcance ou simplesmente dentro da bolsa com avisos sonoros desligados pode ter um impacto enorme sobre nossa produtividade. No terceiro dia a sensação já estava tão positiva que percebia ter tempo de sobra e foi subindo até atingir o pico no sétimo dia mantendo-se então até o final da experiência.

O otimismo e a sensação de felicidade foram outros sentimentos que tiveram uma evolução positiva e significativa a partir do terceiro dia. Já a sensação de alienação social cresceu muito nos três primeiros dias chegando a uma percepção de quase total alienação no quarto dia, e em seguida caiu vertiginosamente até chegar a valores insignificantes. Já a percepção de alienação informacional foi a mais difícil de lidar, percebi o quanto me informo pelos meus pares no Facebook, mas apesar de atingir o pico de quase total alienação nos quatro primeiros dias, caiu a níveis mais baixos, chegando à uma média percepção de alienação informacional.

Ao longo da experiência aumentei minha interação social presencial, e a interação pelo Twitter, WhatsApp e Telegram, acredito ter feito assim uma substituição que impactou nos indicadores de alienação social e informacional.

Após o décimo quinto dia, não retornei ao Facebook, só fui acessar a rede social pela primeira vez cinco dias depois. A sensação de bem estar tomou conta de mim, e a alienação continuou reduzindo significativamente, continuo me informando pelos meus pares, mas agora voltei ao velho hábito de buscar informação diretamente. Minha forma de usar o Facebook mudou totalmente, não pretendo instalar novamente os aplicativos no meus dispositivos, e não sinto vontade de acessa-lo mais que uma ou duas vezes ao dia, e não permaneço mais do que 15 minutos. Tenho postado a partir de aplicativos externos, o Instagram, o Buffer, e compartilhamento a partir de aplicativos.

Conclusão

A experiência foi gratificante, e chama a atenção para um problema que deve ser levado à sério, a nossa relação com nossos dispositivos biônicos e principalmente com nossas relações sociais mediadas por algoritmos. É necessário e urgente estudos multidisciplinares sobre o tema, na busca de formas de construirmos uma sociedade de ciborgues saudáveis, uma vez que não usar a tecnologia pode ser tão desastroso como usa-la de forma intensiva. É preciso, antes de mais nada, estabelecer limites, definir ao menos um dia da semana para ficar totalmente desconectado(a) e usar os recursos tecnológicos com moderação.

É necessário um cuidado ainda maior com as crianças, que estão aprendendo a serem seres sociais. Tenho me incomodado muito o hábito crescente dos país que entregam às crianças dispositivos para que estas se ocupem, enquanto os mesmos estão sociabilizando em restaurantes e eventos sociais. Estas crianças não estão aprendendo a sociabilizar, estão aprendendo desde cedo que podem se alienar através de seus dispositivos, aprisionando-as em um futuro no qual elas não terão a menor autonomia, e não saberão se relacionar pessoalmente.

Próximos passos

Pretendo fazer esta experiência com voluntários, com critério científico, para um estudo mais sério e profundo, caso tenha interesse em se tornar um(a) voluntário(a), por favor preencha este breve formulário até julho de 2018.

Obrigado!


Publicado originalmente no Medium

Desligando os aparelhos

O Flash Brasil foi um sucesso impressionante, um inovador modelo de negócios que iniciei em 1996, tornou-se um fenômeno que formou mais de 4000 profissionais de Internet até 2003, se tornou uma das cinco mais importantes revendas Macromedia no Brasil e prestava consultoria para empresas como a Starmedia, Totem, Sirius, Medialab, TV Globo, Petrobras, IBGE dentre outras. Foram sete anos intensos até a derrocada fatal que iniciou em 2001 com o estouro da bolha da Internet. Além do Flash Brasil, que se tornou uma das primeiras redes sociais, também criei um Ultradev Brasil, que foi uma rede social diferente, com participação intensa dos usuários, conteudo regional e premiação mensal para os melhores colaboradores. Depois de 2004, a empresa já estava morta, mas ainda mantive o site instalando uma plataforma Drupal em substituição às soluções internas, e isto deu uma sobrevida à comunidade até 2008.

De 2008 para cá, apenas mantive o domínio ativo, sem nenhum conteúdo, de um site que chegou à ter quase 15.000 usuários e em torno de meio milhão de visitas mensais, passou a ser um domínio ativo, mas abandonado. Acredite ou não ainda levei nove anos até que hoje decidi simplesmente abandonar o domínio, desligar definitivamente os aparelhos do Flash Brasil que vegetou completamente por nove anos.

Isto tem um significado imenso, significa o rompimento definitivo com um grande momento do passado e abre completamente as portas para novos projetos ainda mais bem sucedidos, me aguardem porque agora eu venho com tudo de volta!

Se quiser saber um pouco mais desta história neste post “Nos tempos da Macromedia“, ainda vou publicar em detalhes no meu site profissional, o Wazushi.