Carta aberta à meus amigos de direita

Aos meus amigos de direita, tenho acompanhado seus posicionamentos, e tenho visto várias aproximações e comparações, que não necessariamente fazem sentido. Por exemplo relacionar a maturidade, status social, o fato de ser empreendedor ou não com a opção política. Teve até um post bem interessante que relacionava o processo de tentativa de consenso do método Agile (1) com a tendência estatística eleitoral. Teve um outro que entendeu que como todos que conhecia iriam votar no Aécio, como Dilma poderia estar na frente? Obviamente no tocante ao conteúdo, quase todos tinham um forte componente emocional e uma certa tendência a ilações direcionadas, bom eu também faço o mesmo, estamos todos apostando no futuro que achamos melhor, então quero apenas colocar algumas ponderações.

Até a última eleição que elegeu o Lula pela primeira vez eu votava em FHC, Collor, Sarney eu era de direita e pro-business. Eu votei no Lula na primeira eleição, me decepcionei com ele no primeiro mandato, achei que ele fizera poucas mudanças, e no segundo mandato votei contra ele. Só vim começar e me interessar por política no meio do segundo mandato do Lula, que foi quando passei a me tornar um ativista pela liberdade na rede, por causa do PL do Azeredo, o PL de Cibercrimes que criava um Estado de Exceção.

Ao entrar nesta luta comecei a entender a estrutura de poder dentro dos três poderes, comecei a realizar o posicionamento de direita, esquerda, centro, e dos “maria mole” que iam para a ideologia mais conveniente. Além destes realizei o verdadeiro Cauda Longa  dentro do parlamento, temos desde políticos de esquerda conservadores à políticos de direitas com focos bem sociais.

Numa comparação com o entendimento de redes, vi que existem diversos clusters ideológicos além dos posicionamentos políticos de esquerda ou direita. Também aprendi a ser um lobista. Lobista é aquele ou aquela camarada que transita entre os gabinetes, tentando convencer parlamentares ou seus assessores à defender seu ponto de vista. Tanto a sociedade civil faz lobby, como as empresas, a academia e até igrejas. Dentro do parlamento é uma disputa pela atenção absurda, vida de parlamentar não nada fácil, ao contrário do que muitos imaginam.

Existem parlamentares que tomam uma posição ao serem convencidos por uma pauta da sociedade civil, e outros que estão o tempo todo defendendo os interesses corporativos. Esta diversidade é positiva!  Mas por outro lado tem seus pontos críticos quando o parlamentar visivelmente se posiciona a favor de seus financiadores de campanha, ou a blocos empresariais poderosos, isto é um indicio de que houve mais do que uma tentativa de convencimento, escancara um comprometimento do parlamentar, vulgo corrupção.

Percebi ai que tão plural como o posicionamento do parlamentar é a corrupção, temos corruptos de todas as vertentes ideológicas e praticamente em todos os partidos. A partir deste ponto, e estudando bastante, muito Maquiavel, Bobbio, Foucault, Deleuze e muitos outros, entendi que a complexidade que havia visto até então era apenas a ponta do Iceberg, o discurso e os estratagemas políticos são tão complexos que não raras vezes nos surpreende com o objetivo final, é uma lógica ilógica muitas vezes. O distanciamento entre esta realidade e a percepção maniqueísta da maior parte da sociedade é assustador, e ainda estou aprendendo, tenho me envolvido em políticas Internacionais e vejo que o jogo é ainda muito mais complexo.

Por falar em percepção da sociedade, ou melhor, percepção do eleitor existem ainda outros dois poderes do Estado além do legislativo, o Executivo e o Judiciário, eles contrabalançam de modo que um Presidente não consegue fazer grandes avanços se não tiver força no legislativo e o Judiciário também pode através de suas estruturas facilitar ou dificultar as coisas.  Além disto temos a estrutura hierárquica, onde temos os três poderes em nível estadual e municipal, cada qual com seu nível de autonomia e dependência e cada um com suas complexidades internas.

Tentando voltar à questão da campanha presidencial, vamos aos comentários de meus amigos:

Ser de direita ou de esquerda não é uma questão de experiência, ou de classe social ou ainda se o eleitor é empresário ou empregado, é uma questão do entendimento individual e suas ambições para o mundo presente e futuro. Eu já fiz piada dizendo que ser de direita é para os amadores, mas estava forçando a barra, ter posição política é para todos, cada um decide com base em seu conhecimento e entendimento. Eu gostaria que as pessoas se interessassem mais por política, mas desde 1500 fomos educados a não gostar dela, vai ser um longo caminho para reverter isto.

A ideia de comparar o processo decisório político com o processo decisório do SCRUM (Agile) é bem interessante, o que foi dito é que quando existem dúvidas sobre que solução tomar em um projeto, decide-se seguir a proposta da maioria ou dos mais experientes, desta forma o interlocutor decidiu deixar seguir a proposta da maioria, apesar de discordar. Acrescento ainda que como no desenvolvimento de software temos ciclos (sprints) bons ou ruins, independente da decisão, o mesmo se aplica à política, temos mandatos bons e ruins para o mesmo candidato. Assim como na gestão de projetos, temos variáveis controláveis e incontroláveis e a configuração final dentro dos poderes também define o resultado de um mandato.

Outra abordagem interessante, foi a da percepção de que apesar de pessoas de seu relacionamento declararem voto em Aécio, Dilma aponta como favorita nas intenções de votos, chegando a induzir que isto possa ser um indício de fraude. Na verdade vivemos dentro de nossas bolhas sociais, a maioria das pessoas com quem nos relacionamos costumam ter conjuntos de afinidades semelhantes aos nossos, isto fica muito claro em análise de redes, onde graphos demonstram com clareza não só as afinidades de diversos interlocutores em torno de um tema, mas quem são os hubs, ou seja, os formadores de opinião. Realizamos isto na luta pelo Marco Civil, onde na nossa percepção todos a nossa volta sabiam o que era o Marco Civil, e sua importância, mas ao receber comentários de hubs de outros clusters (formadores de opinião de outros grupos) de que as pessoas não sabiam o que era o Marco Civil, percebemos nossa falha de comunicação. O segredo de uma boa campanha eleitoral não é convencer os simpatizantes de um determinado partido à votar seus candidatos, e sim convencer os simpatizantes de outros partidos e/ou os indecisos à votarem no candidato do seu partido.

Nestas eleições pretendo votar na Dilma para presidente, apesar de tê-la criticado fortemente ao longo dos últimos anos, por conta de inúmeras decisões equivocadas, de ter retrocedido em importantes políticas progressistas, eu vou votar nela porque não existe uma terceira via, para mim a Marina é muito inconsistente e de interesses dúbios, ao contrário do Aécio que tem interesses claros ligados às políticas neoliberais de FHC, e este jamais seria meu candidato.

Minha decisão não tem relação com maturidade, conhecimento, e nem uma outra, tem relação com a minha expectativa de futuro dentro de minha percepção do presentes e dos diversos atores deste processo, sejam eles ligados à políticas locais e/ou internacionais.

    6 comentários sobre “Carta aberta à meus amigos de direita

    1. Então, mas é necessário esclarecer algumas coisas.

      1) O problema não é a Dilma e sim o PT. Existem evidências de criação de um plano de poder, o que vai além da corrupção corriqueira que já era ruim.

      2) O PSDB não é de direita, e sim de esquerda. Como seu próprio nome diz, segue a Social-Democracia. Tem candidatos de direita no PSDB? Sim, mas o partido em si não é. A direita, assim como a esquerda possui várias nuances e a política brasileira não tem representado os ideias de direita de forma real. Talvez com o partido Novo, comece a haver uma direita liberal, e aí sim as coisas possam ser mais claras.

      3) Aécio neves (muito menos FHC) não é NeoLiberal, e por sinal nunca existiu escola NeoLiberal. Isso é apenas um nome dado pela esquerda a Social-Democracia. Existe Liberal clássico, existem conservadores, e libertários por exemplo. Mas NeoLiberal é um termo de mal gosto cunhado para representar o socialismo de mercado, que é esse modelo intervencionista que temos de um socialismo mais moderado, que flerta com o capitalismo, mas também subordino o mercaodo ao Estado, jamais sendo de verdade de direita.

      4) Sugestão para a leitura de fontes sobre o que eu disse, é sair um pouco da política e entrar mais na economia, para entender que a direita é muito ligada a ela. Um exemplo é a base do iberalismo, que necessita uma leitura cuidadossa sobre Adam Smitha, depois a escola austríaca (principalmente Lwdwig Von Mises, e Friedrich Hayek, mas temos vários outros), assim como os da escola de Chicago, onde se destaca Milton Friedman.

    2. Vamos lá:
      1) Isto é viagem, este factoide to plano de poder, forum de São Paulo, etc, não faz sentido, existe sim má interpretação.

      2) PSDB de esquerda com todo um conjunto ideológico de direita? Você só pode estar brincando.

      3) De fato você esta brincando, dizer que FHC, PSDB e Aécio não são neoliberais, só se mudaram a definição de neoliberalismo, estado mínimo, privatarias e etc..

      4) Esta explicado, pela ótica da economia tudo é possível até direita virar esquerda, e neoliberalismo virar socialismo.

    3. Voltando:

      1) Não é novidade os elogios e admiração de Lula, a respeito dos modelos de Cuba e Venezuela. Tá aí um vídeo dele mesmo falando: https://www.youtube.com/watch?v=DSAmsGBPF-4 mas se não for suficiente eu depois envio mais. Eles estão sim comprometidos em levar o Brasil a um modelo socialista bolivariano pouco a pouco. Basta acompanhar as decisões políticas e alianças feitas. Se há má interpretação no que eu disse, fale mais e me esclareça por favor.

      2) Não estou brincando, e não só o PSDB como o próprio FHC que Lula bem sabe e também afirmou. Novamente com a palavra o líder do PT: https://www.youtube.com/watch?v=14GIcCGpVBw e para maior esclarecimento esse link aqui: http://direitasja.com.br/2013/04/05/fhc-psdb-e-a-diferenca-entre-a-social-democracia-e-a-direita/

      3) Eu não disse que eles não são NeoLiberais, e sim que eles NÃO SÃO LIBERAIS, o que realmente os caracterizaria como direita. Eu disse que NeoLiberal é o nome que a esquerda mais radical chama o de esquerda mais moderado é (Social Democrata). Agora eles são sim a favor de algumas privatizações, mas Estado mínimo, com certeza não defendem, pelo menos como um legítimo liberal ou um libertário. A má interpretação aqui é sobre o capitalismo. Sobre o NeoLiberalismo deixo esse artigo: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=835

      4) A ótica da política distorce muito mais a realidade do que a lógica da economia. Essa negação da economia não é mérito algum. Deixo aqui um artigo sobre o capitalismo: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1578 e recomendo a leitura do livro do Mises chamado “A mentalidade anti-capitalista” pois aí sim ficará clara a diferença real da visão da direita.

    Deixe uma resposta