O novo geek e Maslow

Há vinte anos, o computador era um totem sagrado, que habitava o hermético e gelado santuário da tecnologia. Mouses ainda caiam em ratoeiras e interface gráfica,…., hein ? Era necessário aprender complexos comandos para fazer alguma coisa com estes computadores, e padronização era um nome feio, quase utopia. Na esfera da computação pessoal, nem mesmo sistema operacional os PCs tinham, ao ligar apenas o cursor do Basic piscava na tela. Jogos e programas vinham em revistas como a Microsistemas, mas não eram em CD e nem em disquete, eram códigos fonte para digitar! Quem entendia de computador eram caras esquisitos, que falavam coisas esquisitas e em geral eram a antintese do playboy, eles eram conhecidos por Nerds, ou Geeks.

Hoje em dia o computador virou suco, pulverizou-se, tornou-se ubíquo. Os novos geeks são sociáveis e conectados, usuários compulsivos de gadgets, e principalmente os que permitem esta conectividade. Como diz Scott McNealy, Chairman da Sun, “Era da informação é coisa do século XX, coisa do passado, ja estamos na Era da participação“. O novo geek esta sempre encontrando um bom motivo para uma boa socialização presencial, os primeiros bons motivos foram os Barcamps, e dai uma infinidade de “camps” surgem a cada dia, “botecamps”, “chopcamp”, “o bar do camp”, e por ai vai. Mas o mais interessante é que boa parte dos novos geeks brasileiros fazem esta interação on e off line, e muitas vezes viajam de um estado para outro para uma boa confraternização. Todas as confraternizações são cobertas em tempo real pelos participantes, e quem esta de longe muitas vezes chega a sentir que esta na mesa, participando dos papos animados, e desgutando um belo chopp, ou participando de alguma desconferência.

Os geeks continuam esquisitos, mas agora são uns esquisitos sociáveis e isto faz a maior diferença, o que aconteceu? Cadê aquele geek anti-social do século passado? Como explicar o que aconteceu? Alias o que aconteceu? Aconteceu alguma coisa? O que aconteceu foram mudanças, evoluções tecnológicas que foram sendo absorvidas e transformadas em ferramentas sociais.

O visionário digital do século passado era indispensávelmente da area tecnologia, hoje as características sociais estão tão intrissicamente ligadas à tecnologia, que os visionários digitais do século XXI certamente são ligados às areas humanas. Assim como a internet deixou de ser fim, para ser meio, a sua utilização se da cada vez mais por pessoas comuns.

Piramide de Maslow das midias sociais

Existem algumas teses que possuem ampla gama de aplicações, como a regra de Pareto, a curva de sino e porque não a pirâmide de Maslow para tentar explicar este fenômeno ?

No conceito original, a pirâmide de Maslow é utilizada de forma estática, ou seja, escala-se degrau por degrau, ou dinâmica, que dependendo da situação, pode-se transitar entre os degraus e até mesmo estacionar entre dois deles. Vamos adotar uma analise estática. Desta forma é simples, os dois primeiros degraus representam os patamares determinantes ao ingresso à midias sociais, e hoje em dia são rapidamente percorridos:

  • Conhecimento tecnológico – Hoje em dia, com interfaces cada vez mais intuitivas, o conhecimento tecnológico é um degrau irrelevante, facilmente transposto por qualquer um que tenha o minimo de conhecimento.
  • Conexão, acesso – Com o advento da inclusão digital e das Lan houses populares, e da queda nos preços do acesso banda larga, conexão e acesso estão faceis para muita gente.
  • Interação, participação – É o momento em que o usuário começa a interagir em midias sociais tais como redes sociais, foruns, listas de discussão, instant mensagers, e até mesmo comentando e/ou criando blogs. É o momento em que alguns usuários partem para a interação física, nos eventos geeks.
  • Estima, reconhecimento – Agora o usuário quer reconhecimento, inicia um blog, uma comunidade, ou até mesmo torna-se um usuário extremamente participativo nos foruns e listas de discussão. O usuário busca reconhecimento e investe pesado nisto.
  • Auto realização – Sua presença no ciberespaço está garantida, ele já é reconhecido, e tornou-se uma celebridade. É prosumer, faz parte de um ou mais nucleos sociais. Torna-se um compulsivo por mashups e redes sociais, tem perfis em quase todas, e por incrível que pareça consegue manter tudo atualizado. Neste momento existe por diversas razões o trânsito entre o degrau abaixo, é natural, pois manter-se no topo é infinitamente mais dificil do que chegar lá.

Esta é uma hipotese, esta aberto a discussão, vamos iniciar um estudo antropológico do ciberespaço ?

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22 comments on “O novo geek e Maslow
  1. Estou chocada, perplexa, achando você um louco, maluco, pirado completo e, ao mesmo, tempo muito admirada da sua coragem. Parabéns!
    Este senso, esta percepção do mundo, das transformações e das oportunidades que delas surgem é que me faz crer que você é “o cara”. Tô contigo nessa caminhada, Caribé. Sempre. Tudo de bom.

  2. Concordo. Mas, acho q o mundo precisa de novos nerds (ou seja lá o nome q queiram dar)… Neo-Nerds, Nerds 2.0, Hipernerds, etc.

    Nerds foram essenciais para indicar o caminho e o ponto no qual chegamos.

    Agora q chegamos, cadê eles? Estão aqui do nosso lado. Com ares de CDF comum.

    Então quem está indicando o caminho?

    Céus!!!! O avião está sem piloto!!!!

  3. Caribé,

    muito interessante esta tua analise! Até certo ponto dialoga com o que eu venho aprendendo – do outro lado do balcão. Não me preocupa tanto o fator ‘cade o piloto’, que o Pavoni menciona, nesse momento de ubiquidade o piloto não precisa mais estar isolado no cockpit.

    Mas existe algo a ser considerado que passa pelos conceitos de avatar ou personas, a medida que os relacionamentos vão ficando mais reais aquela caracteristica rpgistica da web onde cada nerd representava no espaço virtual o seu ‘eu’ ideal começa a desaparecer.

    É um dilema tostines. Os nerds estão ficando mais sociaveis por essa nova configuração uber-participativa da rede? Ou os nerds estão mais sociaveis e por tanto, uber-participativos?

    Tenho visto um pouco dos dois.

  4. Gilberto, pergunto: Este avião precisa de piloto? Como escrevi no post Blogosfera S.A. :

    “Uma padronização macro da blogosfera seria um desastre, uma utopia, imagine blogs com missão, visão, planejamento estratégico, pauta, etc. Isto mataria a faceta crowdsourcing do jornalismo social, ordenaria a entropia e a blogosfera perderia sua graça e principalmente a sua força.”

    Acredito que o grande trunfo das midia sociais é justamente a ausência do piloto. Eu acho que estamos caminhando para um momento que o desconectado será a excessão como cito no post A instantaneidade, o crowdsourcing e o jornalismo social:

    A forma de conexão com a Internet hoje em dia, definitivamente não é fator determinante para o crowdsourcing, estamos cada vez mais conectados, e a tendência é nos conectarmos de forma cada vez mais ubiqua, até o ponto onde a excessão será não estar conectado, os desconectados serão os Amishs do século XXI.

    Markun, tambem venho percebendo isto, hoje somos cada vez mais nos mesmos online, acho que é uma caracteristica da perda de privacidade. Mas temos de desenrolar esta máxima do Tostines, que me deixou intrigado.

    MissMoura, sempre fui maluco, só um cara maluco muda de vida radicalmente à cada 10/15 anos, a virada agora é Marketing de Midias Sociais como você sabe. Estudei muito nos ultimos tres anos, e desde que comecei a trabalhar com internet em 95 eu ja trabalhava com o que hoje chamam de midias sociais, as ferramentas eram outras, a interação bem mais impessoal, mas eram midias sociais.

  5. O avião é o mundo e o piloto são os nerds. Não tem nada a ver com blogosfera (aliás um termo tão útil como “combustível”, mostra, mas não explica. Tb escrevi que “blogosfera não existe” no meu blog. Enterrei o termo e não uso nem para retórica mais).

    O problema é quem substitui os nerds se eles não querem mais estar na dianteira. Os nerds sempre estiveram à frente do grupo. Agora, não estão mais. Tudo q eles falam é conhecido do público. Quem vai trazer as coisas novas? Quem está se interessando em fazer nossas redes atuais movidas a elétrons serem povoadas de fótons. Quem está cozinhando um novo chip bioquímico nas panelas da mãe? Quem colocou uma célula de hidrogênio feita na garagem para movimentar a CPU?

    Precisamos de novos nerds sim. Esses que dizem q são nerds não estão mais no meu imaginário como gente diferente, que está adiantada e me fazendo ficar com vontade de saber o que eles sabem.

    O mundo precisa de novos nerds… neo-nerds.

  6. Oi!
    Achei o máximo essa tua análise do Maslow para as mídias sociais e já pensei nos blogueiros. Tenho observado coisas muito parecidas em entrevistas com o povo. Parece que há um uso de muitos blogs para atingir valores e necessidades bem específicos, como o social que tu ressaltas e a boa e velha reputação. Vendo a blogosfera desde os idos de 2000 no Brasil, parece que o blog tá passando um pouco da coisa de sociabilidade (conhecer pessoas, lá nos primeiros degraus) para a coisa de reputação (ou auto-realização, lá no final). Talvez porque a atividade de blogar esteja mais “séria” com esse papo de adsense ou probloggers (quando o cara chega no alto da piramide)? Talvez porque a blogosfera esteja mais “madura”? Sei lá, mas vale discutir. :-)

  7. Gilberto, creio que os novos nerds sejam os empreendedores das fantasticas startups anunciadas no Mahsable e nos Barcamps mundo afora. Assim como o novo Geek tornou-se um ser “hipersocial”, o novo Nerd esta se tornando um novo modelo de empreendedor. Esta é a minha interpretação.

    Imaginando o Ciberespaço como um ecossistema que é regido pelo conceito do mundo de pontas, fica fácil imaginar onde podemos chegar.

  8. Pingback: Romulo Marques

  9. ride the wave, surfe o caos, controle é ilusão, processo é o que há, o substrato é fluido, peer to peer we make “devir”!

  10. Gostei muito do seu blog, comentei sobre sua postagem num artigo do meu blog que relaciona tecnologia com a mesma hierarquia de maslow.

    Fico muito bom, adicionei seu blog na lista de recomendados.

    Continue com o bom trabalho.

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